Lembrança amorosa em data de gosto amargo 
Lembrança amorosa em data de gosto amargo 

Lembrança amorosa em data de gosto amargo 

Por Mariluce Moura*

A última vez em que o dia 28 de outubro não teve sabor amargo foi em 1972. 

Gildo Macedo Lacerda foi estudante, radialista e militante político. Foi preso e assassinado pela ditadura militar

Ou melhor: o 28 de outubro de 1972 teve gosto único. Quase indizível – inesquecível! Diria, sabor de uma certa mistura intensa de felicidade sem pejo, alegria escancarada e excitação controlada que, compondo um todo desnorteante, mantinha, entretanto, a clara identidade reconhecível de cada ingrediente, sobre os quais eu podia ir e voltar, embora estivessem atados todos por um sutil fitilho de medo. 

Era um sábado. A tarde de sábado do meu primeiro casamento. Do único celebrado dentro de um rito religioso. Católico. Enquanto o esperava na casa de meus pais, em Santa Luzia do Lobato, território inicial dos pobres subúrbios ferroviários de Salvador, temi em angústia e silêncio que ele não chegasse. Poderia ter sido preso, eu imaginava, sim, estávamos sempre como que suspensos por um finíssimo fio nos dias ferozes da ditadura sob Medici. 

Mas ele chegou no meio da tarde e me aninhei aliviada dentro de seus longos braços. Apaixonados, assim éramos, assim estávamos. Tomados em apenas dois meses pelas urgências absolutas de uma paixão oceânica, dessas que reviram o mundo e tornam imperativo o reunirmo-nos imediatamente num mesmo espaço – uma casa. Após a celebração, iríamos pela primeira vez para a casa pequenina que alugáramos na beira da praia da Boa Viagem, no final da viela implantada na continuação do corredor do imóvel número 50 da Avenida Luís Tarquínio – ah, os estranhos arranjos arquitetônicos dos pobres e dos empobrecidos de Salvador!!!

Ele chegou, camisa polo vermelha e, creio, calça jeans, cabelos ao vento, a barba e o belo bigode castanho dourado que, numa aposta brincalhona, eu conquistara o direito de ver repostos em seu belo rosto. Um homem alto, magro, de pernas compridas e musculosas, gestos e riso amplos, voz grave e sedutora, desses espécimes privilegiados destinados a arrancar suspiros encantados a torto e a direita enquanto vão passando distraídos. Um homem brilhante e doce, dado mais a encontrar o terreno da negociação do que a se fixar em inflexibilidades toscas e princípios tolos. “Por que não casarmos no religioso, se isso deixaria sua mãe e seu pai tão mais tranquilos e felizes?”, indagara, quando eu lhe dissera que haveria oposição a morarmos juntos, depois de sua proposta, sob a fórmula engraçada, “acho que podemos juntar os trapinhos”, tão ao gosto daquele palavreado cheio de disfarces de nossa juventude. Eu, mais dura, preferiria marcar posição contra “o rito besta do casamento”. Ele, mais suave, entendia que era concessão aceitável.   

E então, ali estávamos, eu de branco, adorava roupas brancas, calça comprida e uma túnica com uma bela pala rendada caindo pelos braços até a altura dos cotovelos, pala que na origem era um centro de mesa e que minhas invenções estilísticas junto com a notável criatividade da exímia costureira que era minha mãe haviam transformado em parte de um traje cheio de charme. Roupa que, anos depois, um namorado apelidaria com graça de múltiplo, porque a pala rendada podia se acoplar a diferentes peças do busto para baixo, tornando-se ora túnica, ora um vestido comprido ou uma blusa curta.  

Diante do singelo altar que minha mãe improvisara na fronteira entre a copa e a sala de jantar da casa, levando a sério o ato oficiado pelo belga Padre Tiago, pároco do Lobato, religioso progressista, claro, e presentes, além de pais, irmãs e irmãos, apenas pouquíssimos familiares, como tia Norma Morais e minhas amigas Nadja Miranda e Maria Luiza Veiga, colegas ambas do curso de jornalismo, parceiras de farras e de cantorias bem afinadas no pátio da escola no Vale do Canela, Gildo e eu nos casamos. 

Gildo, 23 anos feitos em julho, eu, a 6 dias de completar 22 anos. Gildo Macedo Lacerda, ali com o nome de Cássio de Oliveira Alves, adotado naquele tempo de clandestinidade para se defender do furor persecutório da ditadura, eu com o mesmo nome de sempre. Gildo, estudante de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) cassado pelo decreto 477, ex-vice-presidente da UNE, a União Nacional dos Estudantes.  Eu, em situação legal, estudante do último ano de jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA), jornalista atuante na imprensa baiana desde 1969.  

Não há fotos da cerimônia. Na família não tínhamos pensado nisso e minhas amigas não lembraram de levar uma câmera. Comemoramos muito, bebemos, rimos, nos divertimos, e à noite fomos, Gildo e eu, para nossa casa. Não podia imaginar que aquele seria o último 28 de outubro envolto em alegria e entranhado de uma felicidade conscientemente sentida e vivida, condição rara, que perdurou por quase um ano, sempre entremeada ao medo. O próximo 28 de outubro seria marcado por trágico horror. 

Em 22 de outubro de 1973 fomos presos, Gildo, quando saía da nossa casa na Boa Viagem, eu, em frente ao Elevador Lacerda, na Praça Cairu. Outras pessoas foram presas no mesmo dia em diferentes partes de Salvador. Nadja Miranda, pelo crime de ser nossa amiga. Oldack Miranda, também uma estudante e um bancário.

Em 28 de outubro de 1973 – faríamos um ano de casados! -, Gildo morreu em dependências de um quartel do exército brasileiro na Rua do Hospício 489/491, em Recife, Pernambuco (sede do IV Exército). Foi assassinado aos 24 anos por agentes da ditadura que o torturaram bárbara e insanamente durante dois dias, em Salvador, no quartel do Barbalho, e por mais quatro dias em Recife, para onde o transportaram em 25 de outubro. Junto com ele foi morto José Carlos Novais da Mata Machado, 27 anos. 

Não devolveram seu corpo, jamais. A ditadura não forneceu à família o atestado de óbito. O primeiro atestado viria no governo Fernando Henrique Cardoso, no rastro da luta incansável dos familiares de mortos e desaparecidos, sob a liderança firme de personagens como Amelinha Teles e Suzana Lisboa, e o apoio do ministro da Justiça José Gregori. E a causa mortis, ou seja, a violência brutal praticada contra um jovem militante pela liberdade e pela democracia, não a descrição dos efeitos da violência sobre o corpo subjugado, só passaria a figurar num novo atestado de óbito dois anos atrás, arrancado ao Estado pelas batalhas da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da ditadura, integrada por mulheres notáveis como a procuradora paulista Eugenia Gonzaga e a ativista baiana Diva Santana, irmã de Dinaelza Santana Coqueiro, jovem executada aos 25 anos por militares na Guerrilha do Araguaia, em abril de 1974. 

Presa no quartel do Forte de São Pedro, em Salvador, de onde era levada a sessões de tortura no quartel do Barbalho, em início de gravidez, fui informada do assassinato de Gildo em 1º de novembro de 1973. A ditadura me manteve presa até 3 de dezembro de 1973 e, por anos a fio, perseguida de várias formas. Tessa Moura Lacerda, nossa filha, nascida em junho de 1974, só teria o nome do pai na certidão de nascimento aos 18 anos, depois de um longo processo de investigação da paternidade, ainda sem os apoios tecnológicos dos testes de DNA.

Neste 28 de outubro de 2021, no país de novo dilacerado pela violência, pelo autoritarismo e pela vocação homicida de um governo insano, marcado pela morte por covid-19 de mais de 600 mil brasileiros e brasileiras, número já sabidamente ampliado pela deliberada gestão criminosa da saúde pública, rabisco o argumento para o roteiro de um documentário indispensável, em meu entendimento, e que espero esteja concluído até outubro de 2023. 

No documentário pretendemos abordar o assassinato de Gildo e de outros seis jovens militantes da chamada esquerda da Ação Popular Marxista-Leninista ou APML – um dos partidos atuantes na luta contra a ditadura civil-militar de 1964-1985 –, entre junho de 1973 e fevereiro de 1974. Porque, como repisa Tessa em brilhantes e sempre tocantes artigos, é preciso urgentemente transformar nossas memórias da ditadura em história. É preciso, por mais que hoje só haja sombras em nosso horizonte, tentar iluminar o futuro. O que exige encarar com coragem o horror do nosso passado e entender o quanto ele, entre fenômenos radicalmente novos, também molda a distopia de hoje. 

GILDO MACEDO LACERDA! PRESENTE!!!

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*Mariluce Moura é jornalista, presidenta do Instituto Ciência na Rua 

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