Qual deve ser o eixo orientador da campanha do Lula?
Qual deve ser o eixo orientador da campanha do Lula?

Qual deve ser o eixo orientador da campanha do Lula?

Por Jean Marc von der Weid*

Esta pergunta só pode ser respondida se definirmos qual o principal problema enfrentado pelo país atualmente. Como os problemas do Brasil são inúmeros e gigantescos, é melhor começar a usar o plural: problemas. E soluções.

Um programa de combate à fome e de segurança alimentar deve ser elaborado em direção dos 120 milhões que sofrem de algum tipo de restrição na sua alimentação, quer ela seja quantitativa ou qualitativa

O energúmeno provocou ou exacerbou tantos problemas para o Brasil que a escolha de quais são os mais importantes é difícil. Muita gente insiste, eu inclusive, que precisamos de um projeto de país e que ninguém sequer menciona esta necessidade imperiosa. Mas isto tem uma explicação ou mais de uma. Para muitos políticos a questão de um projeto para o Brasil não se coloca. Ou alguém acha que o Centrão e todos os outros partidos da direita se preocupam com o Brasil? Eles se preocupam com seus interesses pessoais ou, no máximo, com os interesses de algum grupo econômico que os financie.

Mas a oposição também não discute um projeto de Brasil e tem se esmerado em propor “mais do mesmo”, ou seja, voltemos ao “passado maravilhoso” dos governos de Lula e de Dilma. A outra razão para a ausência de uma proposta de projeto para o Brasil é uma depravação do debate político provocada pelo energúmeno e seus apaniguados.

O energúmeno, além das muitas investidas contra a economia, o bem-estar social, a saúde, a educação, a ciência, a pesquisa, a cultura, o meio ambiente, etc, etc, etc, está buscando de forma consistente e insistente demolir e controlar as instituições da República com vistas à criação de uma neoditadura, no estilo do húngaro Viktor Orban ou do russo Vladmir Putin. O energúmeno semeia as condições para, no caso de perder as eleições, invalidar os resultados com uma intervenção das Forças Armadas, das Polícias Militares e das milícias que ele está armando e organizando nos Clubes de Tiro. O energúmeno cria o cenário de uma guerra civil, no caso de não ter todas as FFAA do seu lado.

O risco para a democracia é o maior da nossa história e pode provocar uma ditadura mais destruidora do que foi a de 64/85. Frente a este risco, centrar no tema da defesa da democracia e do Estado de Direito parece uma obviedade e parece ser esse o entendimento do ex-presidente Lula. Costumo dizer que uma presidência de Lula eleito estritamente com base no esforço para eliminar a ameaça do energúmeno vai significar um governo muito limitado pelo tipo de apoio político que vai ter que aceitar na campanha eleitoral e mais ainda porque vai herdar um país totalmente destroçado pelo energúmeno.

Lula vai, no máximo, “colocar bandeides em fraturas expostas”, corrigindo algumas das piores medidas do energúmeno, sobretudo as que não dependerem de decisão do Congresso. Mas Lula vai dar à sociedade brasileira uma coisa importantíssima que nos seria negada no caso da vitória do energúmeno: a possibilidade de usar os espaços democráticos para a mobilização social e a luta reivindicatória. Isto em si já justifica as escolhas de Lula e as alianças que vem fazendo. Ele deveria ser ainda mais coerente com estas escolhas e abrir o leque de alianças ainda mais, atraindo a chamada terceira via.

A esquerda petista vaiar o Paulinho da Força em manifestação de frente anti-energúmeno é um contrassenso e um suicídio. É preciso lembrar que os elementos mais lúcidos do Centrão sabem que se o energúmeno conseguir o seu objetivo antidemocrático eles passarão a ser desnecessários para os planos do neoditador.

Mas a pergunta inicial segue em aberto. Deveríamos centrar a campanha na questão democrática, já que ela representa o maior risco para o país? Ocorre que esta questão não “pega” para a maioria do eleitorado, que vive uma situação dramática do ponto de vista da sobrevivência. Todas as pesquisas indicam que é a “economia” o tema predominante nas preocupações do eleitorado.

O termo é mau escolhido, quando se analisam em detalhe estas pesquisas se descobre que “economia” subentende emprego ou desemprego, inflação, fome, endividamento, renda. Estes indicadores gerais muitas vezes se traduzem por coisas ainda mais concretas como: preço do gás de cozinha, preço dos alimentos, preço das passagens de ônibus ou trem, preço da energia, preço da gasolina, etc..

A grande maioria do eleitorado não tem preocupações com o meio ambiente, a não ser quando as inundações derrubam os barracos e mesmo assim não entendem (ainda) as relações de causa e efeito que geram estas tragédias. Os cuidados com a saúde aparecem, ainda como uma herança da pandemia que todos já dão por liquidada. A educação é outro tema dramático, mas os mais pobres só lamentam a perda da merenda escolar, tal a importância da fome no seu quotidiano.

Denunciar as ameaças de golpe do energúmeno deve fazer parte da campanha, é claro, mas o eixo tem que ser muito mais concreto e tocar fundo no desespero do nosso povo sofrido. Este eixo tem que ser o combate à fome e ele tem que ser entendido não só como algo dirigido apenas aos cerca de 20 milhões de famintos que se alimentam de ajudas de terceiros e de restos de cozinhas e lixões. Um programa de combate à fome e de segurança alimentar deve ser elaborado em direção dos 120 milhões que sofrem de algum tipo de restrição na sua alimentação, quer ela seja quantitativa ou qualitativa.

Uma campanha eleitoral centrada no tema da fome e das medidas para combatê-la terá que discutir as causas da fome e suas soluções. Isso envolve desde questões mais gerais de crescimento da economia e geração de emprego, assim como ajudas emergenciais ou estruturais que garantam o acesso aos alimentos adequados. Também envolve definir políticas de importação e distribuição dos alimentos essenciais para uma dieta correta do ponto de vista nutricional. A campanha vai precisar apontar para os efeitos climáticos nos preços dos alimentos e das medidas necessárias para minimizar as secas e inundações provocadas pelo aquecimento global. Finalmente, a campanha contra a fome vai precisar mostrar como o agronegócio é um produtor de fome e que a reforma agrária é o caminho para ampliar a oferta de alimentos no país.

Elementos deste micro programa carregam riscos de desagregação da frente anti-energúmeno, sobretudo a parte que ataca o agronegócio que hoje é um dos maiores controladores de bancadas no Congresso e nos partidos políticos. Talvez tenham que ser adiados para outro momento menos negativo de nossa história.

Finalmente, a campanha não deverá abordar o tema da corrupção, embora o energúmeno forneça inúmeras possibilidades de denúncia, tanto pelo comportamento da “famiglia” como do seu governo, em vários ministérios como Saúde, Educação, Forças Armadas, entre outros. O problema é que Lula, o PT e muitos atuais aliados e futuros aliados, antigos participantes dos governos ditos populares, também têm telhado de vidro e ninguém quer falar de corda em casa de enforcado.

Lula deveria também evitar os chamados “temas identitários” e os culturais, pois seus atuais e futuros aliados se ressentem das posições mais incisivas dos movimentos de mulheres, antirracistas, LGBT+, etc. Como estes movimentos, assim como os eleitores mais à esquerda (entre os quais eu me incluo) não tem outra opção senão votar em Lula para evitar o pior, excluir seus temas da campanha vai apaziguar os neoaliados de Lula e ajudar a isolar o energúmeno.

É com imensa tristeza que estou adotando esta posição sobre a campanha. Todos os mais graves problemas do país dificilmente serão corretamente tratados em um governo nascido de uma aliança com tanta gente atrasada política e socialmente. Mas o maior problema, aquele que faria com que todos os outros se tornassem ainda mais graves, o problema da ameaça à democracia, estaria, senão resolvido, adiado. Estamos lutando por espaço para lutar.

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969/1971), agroecólogo fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia e da Articulação Nacional de Agroecologia. Membro do Movimento Geração 68

** As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Movimento Geração 68

Um comentário

  1. Helena Mesquita

    Gostaria de que a esquerda tenha definido uma pauta enxuta e dentro dela as pessoas fossem se percebendo como ela pode devolver dignidade. Tem a fome, que por consequência acaba com a saude e que por falta de atendimento gera dor e morte e a morte acaba com a identidade, e não ter identidade em vida se traduz em não ter o básico como na CF/88, que pressupõe ter moradia, educação, saúde, educação, trabalho que possa dar sustentação em todos os aspectos como lazer e um meio ambiente saudável e que para se ter tudo isso é preciso ter governantes comprometidos com o o povo brasieiro, com a preservação do pais e uma vida bacana de ser vivida.

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