Corrupção, tortura e eleição
Corrupção, tortura e eleição

Corrupção, tortura e eleição

Tenho ponderado que o problema do atual Governo Federal em relação à corrupção, não é se ele é mais ou menos corrupto do que governos anteriores. Essa comparação não faz sentido na minha opinião.

Por Michel Labaki*

Outros governos apresentaram casos de corrupção, isolados ou não. Mas, o atual governo é intrinsecamente corrupto. Está em seu DNA. Ao contrário de outros governos, não há nada que possa diminuir a corrupção.

Vladimir Herzog, quando foi torturado e assassinado pela ditadura militar, era diretor da TV Cultura

Antes da posse e da formação do governo tivemos “rachadinhas”, compra de mansões, cheques inexplicáveis para a primeira-dama, multiplicação suspeita do patrimônio da família presidencial, candidaturas laranja, contratação de empresas de milicianos. Tudo isso foi considerado bobagens ou brincadeira de criança ou alguma traquinagem do futuro presidente e seus filhinhos e esposas. Mas o governo seria sério e a corrupção seria combatida.

Começa o governo e o que vemos?

• A cumplicidade com o contrabando de madeira da Amazônia.

• A cobrança de propina e atraso na compra de vacinas.

• O orçamento secreto para o Centrão e a farra de emendas parlamentares.

• Líderes aliados com dinheiro nas cuecas.

• Exigência de quilos de ouro e propina feita por “pastores evangélicos” em troca da liberação de verbas da Educação.

• Aquisição de kits-robótica com ágio para escolas sem internet.

• Concorrências com participação de firmas de fachada.

Além de:

• Superfaturamento de ônibus escolares.

• Tráfico de influência.

• Repasses polpudos para ONGs de prateleira.

• Participação e financiamento de atos antidemocráticos. Motociatas com dinheiro público e fechando estradas.

• Nomeação e pagamento de salários para produtores e disseminadores de notícias falsas.

• Acusações sem provas ao sistema eleitoral.

• Manutenção de milícia digital.

• Ofensa, perseguição, calúnia e ataque a qualquer um que divirja ou critique o governo.

• Ataques aos direitos e as terras dos povos indígenas.

• Ataques à legislação e proteção do Meio Ambiente

As provas e evidências são tão estarrecedoras que não estamos vendo, nem os mais convictos bolsonaristas, saírem em defesa do governo.

As consequências de um governo intrinsecamente corrupto são evidentes. O resultado prático de seu governo é assustador: o Brasil de Bolsonaro apresenta uma inflação generalizada em todos os setores da economia.  É um país com 19 milhões de pessoas passando fome, 34 milhões vivendo com apenas um salário-mínimo e mais de 12 milhões de desempregados. Sem falar dos outros tantos milhões que ainda vivem em luto pela perda de mais de 662 mil vítimas da pandemia de Covid-19. É consenso hoje que essa quantidade de mortos poderia ter sido muito menor se tivéssemos um governo normal.

Notem que não estou falando de um governo necessariamente de esquerda. Poderia ser de centro ou mesmo de direita, mas um governo normal. O que o Brasil vive hoje é um pesadelo, mas que tem data para terminar.

Sim, foi nisso que deu eleger um mentiroso, genocida e incapaz como presidente. A utilização de verbas públicas para a compra de salmão, filé mignon, botox, próteses penianas, gel lubrificante e Viagra para a cúpula das Forças Armadas é algo tão chocante que me faz pensar se ainda existe alguma ala saudável dentro das Forças Armadas.

Além dessa farra com o dinheiro público, as declarações de vários oficiais ironizando as próprias gravações das reuniões do STM evidenciando que a prática de torturas na época da ditadura era uma política de Estado.

E aí entramos no problema central em minha opinião: questão da tortura como Política de Estado durante a ditadura.

Há (ou havia) dirigentes das Forças Armadas que afirmavam que os casos de torturas foram casos isolados, que houve violência dos dois lados. No fundo, esta foi a polêmica quando mataram Vladimir Herzog. Houve uma divergência pública entre Geisel e Silvio Frota, um lado querendo que as torturas cessassem ou só fossem usadas contra elementos “perigosos”. Não poderia ter sido usada em outubro de 1975 contra um diretor da TV Cultura, como era Herzog. E o outro lado querendo continuar usando “clandestinamente” a tortura, e que novos “acidentes” como os de Vladimir Herzog seriam evitados.

Na ocasião Geisel saiu vencedor, Silvio Frota foi afastado e aparentemente as torturas e assassinatos diminuíram.

Sim, diminuíram, mas não foram eliminados. O aparelho de Estado que torturava e matava continuava praticamente intacto. Tanto que no final de 1976 assassinaram Pedro Pomar, dirigente do PCdoB, numa operação evidentemente proposital. Tranquilamente poderiam ter prendido Pedro Pomar sem o terem assassinado. Ele foi assassinado covardemente pelas costas! Uma tristeza para o país.

Mataram, prenderam e torturaram outros dirigentes do PCdoB no bairro da Lapa em São Paulo naquela ocasião. Seis meses depois, em julho de 1977, prenderam e torturaram diversos militantes do MEP no Rio de Janeiro.

A partir daí, ao que me consta, o aparato repressivo foi sendo paulatinamente desativado, a Anistia foi aprovada em 1979, os exilados voltaram, os presos políticos foram libertados e os clandestinos voltaram a andar sem medo de ser feliz.

Fiz esse pequeno resumo, para mostrar as diferenças entre alguns militares da época e Jair Bolsonaro hoje. Alguns militares diziam que não existia tortura. Que aconteceram apenas alguns casos isolados. Outros diziam que até existiu, mas que foi utilizada apenas contra os militantes de esquerda perigosos. Todos mentiam, mas procuravam externamente um mínimo de civilidade.

E Bolsonaro? Qual o “pensamento” dele?

Ele diz com todas as letras que a tortura existiu sim e que foram torturadas poucas pessoas. Deveriam ter torturado muitas mais. Mataram cerca de 500 pessoas, deveriam ter matado 30 mil. Que Carlos Alberto Brilhante Ustra é um herói.

Por que herói? Porque torturou Dilma Rousseff.

Este “pensamento” de Bolsonaro foi levado para o governo. Creio que vários integrantes de seu ministério pensam exatamente assim. Isso só não é aplicado, porque ele não tem força política para implantar a ditadura. E nem terá!

Apesar da tristeza em ver tantos brasileiros cegos, não enxergando quem é Bolsonaro, ou pior, enxergando e concordando com ele, não vejo a menor possibilidade de Bolsonaro se reeleger.

O pesadelo está terminando. Basta fazermos a nossa parte e Bolsonaro será derrotado. Mesmo gritando que as urnas eletrônicas são contra ele.

Quem é contra ele é a maioria do eleitorado!

Tchau Bolsonaro!

*Michel Labaki é membro do Movimento Geração 68

** As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Movimento Geração 68

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