Geração 68 cria brigadas digitais pela democracia
Geração 68 cria brigadas digitais pela democracia

Geração 68 cria brigadas digitais pela democracia

Por Mateus Forli e Rodrigo Tomazini*

“A luta contra a extrema-direita no Brasil, como qualquer luta política, passa pela disputa na arena da comunicação. Os meios digitais são parte fundamental desta disputa.”

O termo fake news se tornou bem conhecido dos brasileiros recentemente. Desde 2018 o seu uso nas diversas mídias, nas mesas de bar ou de jantar, nas escolas e universidades, nos locais de trabalho e no ambiente doméstico, foi cada vez mais frequente, e não à toa. As eleições à presidência daquele ano demonstraram a força destrutiva das notícias falsas e seu impacto no processo democrático. Enquanto se escondia dos debates, Bolsonaro se valia de um acervo improvável de filmagens manipuladas, narrativas escabrosas, imagens sensacionalistas, as quais veiculou “a torto e a direito” através das redes sociais. Acusações absurdas se impuseram como verdade e, quando foram finalmente desmentidas, já tinham causado demasiado estrago. 

As fake news não são, contudo, de todo uma novidade. Com efeito, a desinformação, a contrainformação, a calúnia etc. são bem conhecidas na história das civilizações humanas e foram recursos utilizados por diferentes grupos nas mais diversas circunstâncias. Mas as fake news denominam algo que, ao menos em extensão e intensidade, é novo. E não poderia ser de outra forma: a aparelhagem que compõe o complexo das fake news é extremamente sofisticada e depende justamente do advento das novas tecnologias da informação, no segundo quartel do século passado; da sua difusão ao ponto da virtual onipresença na vida cotidiana da maior parte das pessoas no mundo, atualmente. Este paradigma permite a coleta e processamento de uma enorme quantidade de dados pessoais, disponíveis no farto campo de colheita da internet. Permite o delineamento de perfis sociais, psicológicos, políticos e morais e, doravante, o direcionamento de conteúdos “feitos sob medida”, capazes de explorar as aspirações, inseguranças e angústias de segmentos inteiros da população. E, é claro, capazes de intervir na maneira como eles votam.

Foi, aliás, em 2018 que a maior parte dos brasileiros foram apresentados a uma nova personagem, que passou a participar ativamente da política nacional: o “gabinete do ódio”. Na esteira da difusão de notícias falsas promovida pela campanha de Trump em 2015, inspirados por comunidades cibernéticas de extrema-direita como o QAnon, os filiados ao The Movement do Steve Bannon em Terra brasilis criaram uma verdadeira milícia digital. O seu gabinete do ódio dedica uma estrutura de comunicação inteira a serviço da criação de um “brasil paralelo”, onde, em meio a uma pandemia, as máscaras fazem mal à saúde, a hidroxicloroquina é um tratamento eficaz, o distanciamento social uma “coisa de maricas”, as vacinas instalam chips nas pessoas, a Covid-19 é apenas uma gripezinha; onde, pasmem, não há escândalos de corrupção no governo, Bolsonaro impediu a guerra na Ucrânia e tantas outras mentiras mais. Com robôs e mecanismos de disparo em massa, mobiliza pela sua agenda golpista uma base fanática e consolidada, gerando um engajamento em torno de sua agenda.

A novidade do gabinete do ódio não está no conteúdo por ele veiculado que, confessamos, salta aos olhos pela sua primariedade, virulência e inverossimilhança – quem não se lembra da famigerada “mamadeira de piroca”? Está, por outro lado, na metodologia de distribuição dos conteúdos, no blitzkrieg de cortinas de fumaça cuidadosamente articuladas com acusações aos adversários e ovações ao “grande líder”, no uso das redes sociais como maneira de engajar-se diretamente com o público, estrangulando ou eliminando a intervenção de agentes externos à base de apoio mais fiel, que mais consome e reverbera seus conteúdos.

A luta contra a extrema-direita no Brasil, como qualquer luta política, passa pela disputa na arena da comunicação. Os meios digitais são parte fundamental desta disputa e, na luta contra o bolsonarismo em particular, têm ainda maior relevância. É urgente que os setores democráticos avancem sobre esses meios de maneira organizada.

Contra as milícias digitais: Brigadas Digitais

O movimento Geração 68 Sempre na Luta, formado por lutadoras(es) históricas(os) que se aglutinaram para defender a democracia e combater o fascismo, pensando nisso, tomou uma importante iniciativa. Para combater as milícias digitais bolsonaristas, criou “Brigadas Digitais” de ativistas dedicados ao combate à desinformação, ao autoritarismo, em defesa da democracia. Tem como objetivo dar o “pontapé” necessário à criação de uma rede orgânica de ativistas e movimentos, comprometida em engajar-se e aumentar a distribuição de publicações ligadas à esquerda e buscando neutralizar a atividade bolsonarista.

Diferente do gabinete do ódio, não dispomos de uma enorme quantidade de recursos – exércitos de robôs, financiamento, bancos de dados ou infraestrutura congênere. Dispomos, contudo, da disposição de muitos para combater o fascismo. Assim, a Geração 68 propõe a articulação dos diversos movimentos, associações, entidades, sindicatos e partidos, para atuar sob uma plataforma comum de comunicação política, articulada e apoiada por ativistas e militantes, comprometida com a defesa da democracia antes, durante e depois das eleições.

Nesse sentido, vem, desde o ano passado, oferecendo cursos gratuitos para militantes e ativistas interessados em compreender o funcionamento das redes sociais, o paradigma das chamadas Big Techs, a distribuição de conteúdos e, em geral, refletir sobre uma comunicação popular apropriada ao novo século. Os cursos, além de habilitar um número cada vez maior de pessoas a atuar conscientemente nos meios digitais, são um espaço frutífero para o desenvolvimento de novas Brigadas.

Ainda que incipiente, a iniciativa do movimento Geração 68 é um passo importantíssimo para as esquerdas no Brasil. O conteúdo de sua iniciativa é poderoso e não pode ser subestimado. É verdade que a atenção aos meios digitais e a intervenção organizada neles não substitui a atividade política diária nos locais de trabalho, de estudo, de moradia; nos movimentos, coletivos e sindicatos. Mas, ao mesmo tempo, é igualmente verdade que as redes sociais, especialmente nas eleições, serão uma arena importante, o flanco através do qual devem se travar decisivas batalhas da comunicação no próximo período.

* Mateus e Rodrigo são jovens apoiadores do movimento Geração 68 Sempre na Luta

** As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Movimento Geração 68

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