Uma estratégia para superar o desastre bolsonarista
Uma estratégia para superar o desastre bolsonarista

Uma estratégia para superar o desastre bolsonarista

Por Jean Marc von der Weid*

A herança maldita, desta vez, é para valer e não retórica pós-eleitoral como em 2003. Quem se eleger em outubro e tomar posse em janeiro de 2023 vai ter que lidar com inúmeras crises acumuladas e articuladas. Várias delas já vem sendo gestadas há muito tempo enquanto outras são o produto da ação destruidora do energúmeno. Não é aqui o lugar para enumerar e dissecar o conjunto gigante de problemas a serem enfrentados. O que pretendo fazer é discutir como enfrentá-los.

As medidas a serem tomadas pelo governo de reconstrução nacional a partir de 2023 terão que ser duras se é que se pretende enfrentar a tsunami de crises. Elas vão ferir interesses de vários setores da elite econômica brasileira. E, para começar, vai ser preciso reestabelecer o equilíbrio entre os poderes da República, recompondo o poder de intervenção do Estado. O executivo hoje é um poder sem poder, sujeito às chantagens do Legislativo e reduzido a subordinar-se aos comandos daquilo que se conhece por Centrão. Isto trouxe para o Brasil, pela primeira vez na história, uma pulverização do orçamento nacional em ações de caráter local, segundo critérios de distribuição e de orientação definidos pelos interesses paroquiais dos deputados e senadores. Como recuperar o poder do Estado?

Não há fórmulas mágicas. Sem um processo revolucionário que varra do poder as oligarquias e seus representantes a única maneira de mudar este quadro é ganhar a maioria do Congresso nas eleições vindouras. Para ganhar a maioria vai ser preciso ter uma plataforma muito clara de enfrentamento das várias crises já mencionadas e defendê-la com unhas e dentes junto à sociedade, de forma a tornar claro para os eleitores que não basta tirar o energúmeno, vai ser preciso tirar os seus apoiadores no Senado e na Câmara. Sem entrar agora nos termos do programa, que fica para um outro texto, adianto que o programa necessário para salvar o país não vai agradar o agronegócio e a Faria Lima, nem fazer pular de entusiasmo os milionários e os bilionários. Ele vai desagradar também os privilegiados de todo tipo no executivo, legislativo e judiciário. O programa terá que enfrentar os interesses da indústria automobilística e os do setor de petróleo e gás. Isto entre outros setores de menor importância entre as classes dominantes. Por isso mesmo, não vai ser possível fazer uma frente com os representantes destes interesses que se encontram espalhados nos partidos de direita, de centro e até de centro esquerda.

Para convencermos o eleitorado de que o nosso programa é fundamental para o progresso das grandes massas não podemos nos juntar com forças que não tem identidade com ele e que tudo farão para sabotá-lo. Uma frente com Alkmin, Kassab, MDB, DEM + PSL, PSD e PSDB, todos partidos que o Lula vem namorando, não será possível sem reduzir o programa único a um discurso genérico e ao abandono das propostas mais importantes, para não desagradar os novos aliados. Aparentemente o Lula está fazendo este jogo de concessões em nome de derrotar o inimigo principal, o energúmeno. Isto certamente vai garantir a sua eleição, mas como, para quem e para que ele vai governar? Será que o Lula está se transformando na “terceira via”?

O perigo da eleição centrada apenas em afastar o energúmeno é tirar a nitidez das diferenças dentro da frente ampla que vem se formando para este fim. Desta forma, o eleitorado vai votar com um só propósito e sufragar Lula, elegendo-o, talvez, já no primeiro turno. Mas os eleitos para Câmara e Senado serão os que, apoiando o Lula, terão mais visibilidade, já que não vai haver diferenças programáticas entre os lulistas e os neolulistas. Terão mais visibilidade os que tiverem mais máquina eleitoral e isto tem a ver com a distribuição das emendas de relator e do fundo eleitoral. A chance do Centrão sair fortalecido nestas circunstâncias é muito grande.

Alguns dirão que os candidatos de esquerda podem fazer campanha com um programa mais radical do que o do Lula e disputar espaço com os aderentes de última hora vindos da direita e até do bolsonarismo arrependido. Mas acho que a tradição brasileira e mais ainda a história política recente mostra que é o candidato a presidente quem polariza o conteúdo das campanhas para o Senado e para a Câmara.

Sei bem que muitos “gatos escaldados” da esquerda temem que uma candidatura Lula muito marcada à esquerda levaria ao isolamento e, possivelmente a uma derrota para o energúmeno. Acho que isto é possível, pois apesar do desconforto recente da classe dominante e sua crescente ruptura com o energúmeno, ela dificilmente apoiaria um Lula com cara de Lula 1989 (lembremos que com toda a oposição da classe dominante Lula quase ganhou em 89) e pode voltar-se para reeleger Bolsonaro no segundo turno, tipo apoio ao “mal menor”. Mas uma campanha intensa e apostando na esperança e na mudança, nos marcos da brutal crise que nos assola, pode nos levar à vitória. Não se trata de fazer uma frente de esquerda sectária, mas uma frente de massas junto com os partidos e uma forte campanha de rua mobilizando a sociedade civil e os movimentos identitários. Construir o programa com a mobilização da sociedade civil organizada vai ser um meio poderoso de agregar gente que nunca se ligou a partidos nem a eleições.   

A escolha dos temas de campanha e do programa emergencial de salvação nacional devem estar fortemente vinculados ao quotidiano. Dentre eles os mais fortes seriam a fome (envolvendo desemprego, subemprego, perda de renda, endividamento, carestia e inflação), pandemia e crise da saúde (centrando na intensificação da campanha de vacinação e  na recuperação do SUS), meio ambiente (desmatamento/queimadas, crise hídrica, crise energética, agrotóxicos, poluição dos rios pelo mercúrio das mineradoras, represas, inundações, secas, saneamento), educação (crise dos ensinos básico e médio, desmonte das universidades), segurança (desmonte das milicias, desarmamento da população, reforma das polícias). A pauta dita identitária (negros, mulheres, indígenas, LGBT+) é transversal a estes e a muitos outros temas, em particular o tema do racismo, com ênfase na questão da “guerra” da polícia contra o povo negro.

A aplicação deste programa vai necessitar a recuperação da capacidade de investimento estatal: fim do teto de gastos, reforma tributária centrando os impostos na renda dos milionários e bilionários e reduzindo e simplificando os impostos sobre produtos e serviços, centralização do orçamento nas mãos do Estado, eliminando as emendas dos parlamentares. Sim, todas elas. Estas emendas foram sendo arrancadas como concessões do executivo para adoçar as relações com o Congresso e não fazem qualquer sentido. O orçamento deve seguir uma lógica nacional e não ser fatiado em função de interesses eleitorais paroquiais.

É importante repisar a importância de se construir uma frente de esquerda de caráter popular e não como mero congraçamento de partidos. O necessário é organizar frentes da sociedade civil organizada que estejam enraizadas em cada quarteirão de cidades grandes e pequenas, em cada taba, em cada vilarejo, em cada assentamento rural. Que se multipliquem as formas de organização, por temas, identidades, territórios. Que se mobilizem por ações imediatas e por demandas para o futuro governo Lula. Que discutam candidatos à Câmara, Senado, Assembleias Legislativas e governos de Estados para escolher os que não tenham compromissos com Centrão ou outras formações de direita. Não vamos cair em uma campanha meramente eleitoral pois as crises estão se precipitando e vão provocar instabilidade social ao longo deste ano. Nada de “adiar as soluções” para o ano que vem “para não atrapalhar as eleições”. Vai ser na luta e não nos conchavos que vamos poder neutralizar as múltiplas formas da direita política e social e garantir as eleições e a vitória nas eleições.

O grande senão desta estratégia, reconheço, é o próprio Lula. A estratégia do Lula é outra. Ela passa por atrair todas as expressões do anti-bolsonarismo, mesmo as recentemente rompidas com o energúmeno. Como não são nada transparentes os termos dos acordos que estão sendo acertados neste frentão só podemos concluir que eles estão muito longe da radicalidade que o somatório das crises que estamos vivendo exigirá do próximo presidente. Se o único acordo com o centro e com a direita vai ser o afastamento do Bolsonaro e seus asseclas desclassificados ficaremos com um governo reduzido a amaciar os desatinos do energúmeno. O agronegócio está na raiz da crise alimentar e ambiental que nos assola e Lula está buscando acordos com o lado “razoável” desta gente? Que acordos? No seu primeiro governo Lula já fez inúmeras concessões para este setor e não parece entender que nunca fará concessões suficientes para que o agrobusiness não procure derrubá-lo na primeira oportunidade.

Será possível aplicar esta estratégia sem a intervenção do Lula? Já ouvi de amigos a ideia de fazermos uma campanha em paralelo com a do Lula de forma a ganharmos uma melhor composição do Congresso independentemente do nosso candidato. Talvez seja o que nos restará, mas sem ilusões. Para o eleitorado em geral o que pesará mais vai ser a mensagem do candidato a presidente e não a de seus apoiadores mais exigentes.

Sem a explicita adesão de Lula a um programa de salvação nacional com medidas que não poderão deixar de parecer radicais nos marcos da política brasileira (embora não o sejam por qualquer outro critério) como vai ser a escolha do eleitorado para a Câmara e para o Senado? Vai pesar mais na campanha a capacidade dos candidatos de se mostrarem ao público, com tanto ou menos conteúdo do que o Lula, contanto que se identifiquem como Lulistas e anti-bolsonaristas. O que define esta capacidade de aparecer? Dinheiro, e é aí que entram as emendas parlamentares e a distribuição dos recursos do fundo eleitoral. Sem uma clara ruptura programática entre uma frente popular de salvação nacional encabeçada pelo Lula e a geleia geral de direitistas, ex-bolsonaristas, oportunistas, etc, a probabilidade dos candidatos sem identidade ideológica com Lula se elegerem em massa apoiados no dinheiro vai ser enorme. Lula terá que governar em permanente negociação e concessões com os abutres que já dominam o cenário político atualmente: os Liras, Nogueiras, Costa Netos, e outras expressões do patrimonialismo eleitoral.

Há meses, eu defendi a necessidade de uma quarta via; um candidato a presidente à esquerda do Lula e capaz de liderar uma campanha arregimentando a sociedade civil e criando um forte movimento popular pelas mudanças e que tinha em vista apoiar Lula no segundo turno. Era uma hipótese cheia de SEs, em primeiro lugar SE Bolsonaro saísse da parada. Bom, não só Bolsonaro não saiu da parada, mas o Lula está buscando ocupar o espaço da tão procurada terceira via. Quem fica órfão é quem defende a necessidade e a possibilidade de se fazer uma ruptura a favor do povo e não apenas um remendo no desastre que Bolsonaro vai deixar para nós.

Para quem entende que vai ser necessário um programa mais radical para sairmos do desastre bolsonarista vai ser preciso buscar a construção de programas temáticos de forma ampla para legitimá-los a ponto de terem de ser considerados pela campanha e pelo governo do Lula. Por exemplo, seria ideal realizar uma conferência nacional dos movimentos do mundo rural, discutindo um programa de combate à fome e pelo desenvolvimento sustentável. Este movimento, partindo desde os municípios e territórios até uma plenária nacional deveria poder acumular um balanço dos últimos anos e propostas de curto, médio e longo prazo. É um exemplo que poderia ser repetido tema por tema, setor por setor, buscando gerar densidade política com mobilização de massas de forma a levar ao Lula uma contrapressão que o faça avaliar com quem e para que vai fazer acordos de governança.

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969/1971), agroecólogo fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia e da Articulação Nacional de Agroecologia. Membro do Movimento Geração 68

** As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Movimento Geração 68

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